PESQUISA DA UFF DE PÁDUA INCENTIVA ENSINO DA HISTÓRIA AFRICANA NAS ESCOLAS

Desconstruir estereótipos e destacar o passado glorioso das rainhas e reis africanos são os grandes desafios do professor de História Contemporânea da UFF, Júlio César Medeiros Pereira, do Departamento de Ciências Humanas de Santo Antônio de Pádua. Outro objetivo do pesquisador é garantir a aplicação da Lei 10.639/03, que trata da obrigatoriedade do ensino da história da África, da luta dos negros no Brasil e da cultura afro-brasileira na formação da sociedade nacional nas escolas de ensino fundamental e médio, públicas e privadas, do país.

A ideia, segundo ele, é que os professores possam ensinar às crianças uma história na qual elas se vejam representadas não como oriundas de pessoas escravizadas, ou em posição desprestigiada, mas como descendentes de um povo vencedor, guerreiro e portador de um vasto conhecimento milenar. Além disso, o foco do trabalho é a produção de conhecimento relacionado à temática negra e que esse conteúdo chegue à sociedade como um todo.

No Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos (IPN), os pesquisadores vêm lutando para guardar a memória de milhares de africanos escravizados que foram trazidos para o Brasil e sepultados sem nenhum paramento religioso. Trata-se do maior cemitério de escravos das Américas e fica na Gamboa, zona portuária do Rio de Janeiro. Este assunto foi tema do primeiro livro de Júlio César “À flor da terra: o Cemitério dos Pretos Novos no Rio de Janeiro”. Na obra, ele discute os mecanismos simbólicos da morte na visão africana e os motivos que fizeram que, pelo menos 60 mil indivíduos recém-chegados, os chamados pretos novos, nunca tivessem sido devidamente enterrados e nem recebessem quaisquer paramentos fúnebres e respeito.

No continente africano, as famílias eram matrilineares, ou seja, cabia à mulher um papel social muito além do trabalho doméstico e da educação dos filhos”, Júlio César Medeiros.

Concomitantemente, Júlio César também realiza uma pesquisa denominada “Saúde e Adoecimento de populações quilombolas no Rio de Janeiro” junto a um grupo de estudantes. O trabalho tem como foco os diversos grupos remanescentes de povos tradicionais e é desenvolvido no curso de Licenciatura Especial de Educação do Campo, no campus de Santo Antônio de Pádua. “As pesquisas que temos realizado nessa área têm relação com os meus trabalhos de mestrado e doutorado sobre saúde dos escravos, publicado no meu livro intitulado “A sociabilidade escrava na Imperial Fazenda de Santa Cruz”, baseado em minha tese de doutorado em História da Ciência e da Saúde pela Fiocruz”, informou o professor.

Segundo o pesquisador, no departamento em que atua em Pádua, há um número expressivo de professores negros e negras, também interessados pela temática. “Por esse motivo, criamos o Núcleo de Estudos e Pesquisa Sankofa, onde trabalho com os colegas Silvio Lima e Claudio Honorato, o africanista Tomba Justus Axel, do Congo, mestrando da UFRJ, estudantes de pedagogia e educação do campo e, ainda, colaboradores do IPN, que também se interessam pelo assunto”, acrescentou o pesquisador.

Professor Júlio César Medeiros

O professor explica que o curso em que leciona na graduação tem sua grade curricular voltada à questão étnico-racial. “Temos disciplinas obrigatórias, como Educação e Relações Étnico-raciais, História e Cultura dos Povos Indígenas, História Afro-brasileira, Cultura popular e Patrimônio imaterial, todas no sentido de construir uma formação de docentes preparados para a inclusão e diversidade”, informou.

Na opinião de Júlio, a abordagem do tema para a comunidade acadêmica e para a sociedade em geral é essencial, pois há séculos essas informações foram sonegadas dos brasileiros, que, por isso, têm em sua maioria uma visão segregacionista e limitada da população negra residente no país. As pesquisas sobre a África e a Diáspora que são conduzidas pelo grupo, assim como os trabalhos sobre o ensino destes temas em sala de aula são fundamentais para a universidade. “A UFF é uma das principais universidades públicas do Brasil, mas a sua produção e ações nesta área são muito reduzidas se comparadas a outras instituições de ensino superior”, ressaltou.

Já quanto à temática das rainhas africanas, Júlio César afirma que se trata de uma nova abordagem, ainda em processo de construção, e que a ideia surgiu com as pesquisas no IPN. Lá os arqueólogos encontraram a primeira ossada completa de uma mulher vinda da África, batizada por eles de “Bakita”, que significa “abençoada”, em homenagem a uma santa católica que dedicou a vida na luta pela libertação dos escravos na África.

Na entrevista a seguir, Júlio César Medeiros amplia o nosso conhecimento sobre a história e a cultura do povo africano:

Como o senhor avalia o ensino da história e da cultura africanas no Brasil após a lei 10639/03?

Significou um grande avanço para o conhecimento acerca do nosso passado, uma vez que não se pode entender o Brasil sem se compreender a África. A implementação dela, e depois seu acréscimo pela lei 11.645/8, que incluiu o ensino da cultura indígena, produziu um grande impacto no ambiente escolar uma vez que trouxe à tona questões relacionadas à noção de pertencimento e reconhecimento do negro e do indígena como sujeitos históricos do nosso país.

Quais medidas o senhor acredita que ajudariam no processo de difusão desses conteúdos no Brasil?

As medidas ainda precisam de ajustes, mas já é um grande passo em direção à tentativa de diminuição do preconceito racial. Acho também que a lei pode ser considerada um marco da luta histórica da população negra para se ver retratada com o mesmo valor dos outros povos.

Em 1878, o missionário Alexander Mackey chegou à Uganda, à tribo do Rei Mutesa, levando uma forja para fabricar ferramentas agrícolas. Poderia explicar o domínio da forja no continente africano?

Em primeiro lugar, há de se relativizar esta informação de Alexander Mackey, pois pressupõe uma África homogênea no sentido de inovações tecnológicas. Na verdade, grupos bantos já dominavam a técnica da forja muito antes do século XVIII. Há diversos artefatos que foram encontrados em sítios arqueológicos na região de Taruga, na Nigéria central, que datam dos séculos V e VII a.C e, no Vale do Níger, foram descobertos milhares de artefatos de ferro, que ao serem expostos ao processo de datação por carbono 1, demonstram ser do século II a.C. Tudo isto comprova que os africanos do tronco linguístico banto já produziam utensílios de ferro muito antes dos europeus ou mesmo dos mesopotâmios. Assim ao longo de pelo menos um milênio, três grandes levas de grupos bantófones deixaram a região da zona equatorial e se expandiram para o sul dominando e se aculturando com os grupos autóctones da região até o que é hoje a África do Sul.

Makeda, a Rainha de Sabá

E qual o papel das rainhas na sociedade africana?

O destaque de rainhas africanas está relacionado ao fato de se tratar de uma sociedade regida por uma lógica completamente diferente da organização social europeia, pois na África as famílias eram matrilineares, ou seja, cabia à mulher um papel social muito além do trabalho doméstico e da educação dos filhos. Eram elas que resolviam as disputas, negociavam na vizinhança, etc. Além disso, apenas a linhagem materna tinha importância, fazendo com que a mulher, a mãe e filha assumissem um papel preponderante no grupo social, o que, por sua vez, possibilitou o surgimento de verdadeiros matriarcados, como por exemplo, o da famosa rainha de Sabá, chamada de Malikat (Makeda, para os etíopes), que ficou imortalizada por sua visita ao rei Salomão, em Israel em cerca de 600 a.C., e por ter sido registrada no Antigo Testamento. Ela era oriunda do reino de Sabá, atual Etiópia e, segundo a tradição etíope, tiveram um filho chamado Menelik I que viria a ser o primeiro imperador da Etiópia.

Houve outras rainhas importantes no continente africano?

Zingha, reine d’Angola por Jean-Louis Castilhon

Em Axum, perto do delta do Nilo, se desenvolveu a sociedade egípcia, cujo solo presenciou rainhas como Amósis Nefertari e depois com a rainha Shanakdakhete (por volta de -170 a -160), dando início a uma sucessão de “rainhas mães”. Mas não foi somente na antiguidade africana que as mulheres estiveram no poder, ainda poderíamos citar a rainha ga Mbandi (1581 – 1663), figura feminina da resistência africana contra o colonialismo. A rainha Nzinga marcou a história de Angola do século XVII. Ela foi uma grande estrategista e hábil negociadora, defendeu o seu povo até à sua morte, em 1663, com 82 anos. Nzinga foi a rainha das tribos Ndongo e Matamba, tornando-se um notável exemplo de governo feminino. Enfim, todos estes fatos comprovam não apenas o destaque do papel da mulher naquela sociedade, mas também o grande avanço tecnológico produzido. É isto o que queremos mostrar.

Como ocorreu a evolução das tribos africanas e quais as consequências dessa história para a formação do povo brasileiro?

A África, berço da humanidade, tem um papel mundial que ultrapassa em muito o seu passado de exploração e sofrimento. Nosso desejo é que nós brasileiros, portadores desta cultura, uma vez que estamos no país que recebeu o maior número de africanos na Diáspora Atlântica – seis milhões de africanos – possamos nos orgulhar de nossas origens ao entramos em contato com a nossa raiz, nos compreendamos melhor, e assim possamos avançar em direção a um futuro de progresso e respeito às diferenças.

Qual é a importância de se falar sobre cultura africana com o público infantil?

A importância de se ensinar a história e a cultura afro-brasileira às nossas crianças está em poder romper com um tipo de postura pedagógica que não reconhece as diferenças resultantes do nosso processo de formação nacional, a fim de que elas criem laços de identidade e de representatividade com a sua história.

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