CEOM SG JÁ ATENDEU MAIS DE 70 MIL MULHERES EM SITUAÇÃO

“Éramos nós três: eu, meu marido e nosso filho, no nosso mundo, como uma família comum. Até que há dois anos, depois de 12 anos casados, tudo mudou. Comecei a sofrer todo o tipo de agressão psicológica possível, só que eu preferia acreditar que era só um momento difícil na vida do meu marido e que isso ia passar”, relembra Lyvia, vítima de violência, uma das 70 mil mulheres assistidas pelo Centro Especial de Orientação à Mulher (Ceom), que há 21 anos é uma política pública referência no combate à violência na cidade de São Gonçalo. Hoje, na comemoração de 12 anos da lei Maria da Penha (11.340/2006), a instituição é referência no acolhimento de mulheres, que como Lyvia, encontraram forças para romper este ciclo que vitimiza 12 mulheres todos os dias no Brasil.

Formados por equipes multidisciplinares, os Centros (Zuzu Angel e Patrícia Acioli) possuem psicólogas, assistentes sociais, advogado e guarda municipal, que formam uma rede de apoio e acolhimento às mulheres que chegam ao local. Em constante articulação com as redes de proteção como o movimento de Mulheres, Defensoria Pública, Ministério Público e delegacias especializadas.

“O trabalho do CEOM é resgatar a autoestima dessas mulheres vítimas de violência e auxiliá-las a romper o ciclo de violência, amparando e acolhendo com apoio psicológico, jurídico e assistencial. O Ceom é um instrumento de luta e garantia da cidadania em São Gonçalo”, afirmou a subsecretária de Políticas Públicas para Mulheres, Andrea Machado.

Com um trabalho voltado para o rompimento da situação de violência, grande parte dos atendimentos realizados na instituição são de violência patrimonial (onde o/a agressor/a) retém documentos da vítima, a expulsa da própria casa, dentre outros; violência doméstica e psicológica. Esta última é o segundo delito mais registrado no Estado do Rio. Foram 34.348 casos em 2017, de acordo com o relatório, ou seja, são quase quatro casos por hora. E na maioria dos casos, a violência começa dentro da própria casa.

“Comecei a enxergar nele uma pessoa possessiva. Ele me trancava em casa e saía, proibia o meu filho de ficar perto de mim e isso tudo sem motivo, sem brigas, nem discussões. Demorou um ano para a minha ficha cair e perceber que nada ia mudar se eu não buscasse por ajuda. E a situação só foi piorando. Ele sequestrou meu filho, tentou jogar o carro contra mim na rua e chegou a tentar enfiar uma faca na minha mãe. Até que um dia ele tentou jogar álcool para depois atear fogo no meu filho e eu lutei muito para ele não matar o menino. E nesse período de dois anos foram 11 boletins de ocorrência contra ele”, relembra a vítima.

Em 2017, o município de São Gonçalo fez parte das 10 cidades com maiores números de violência psicológica, tentativa de estupro e lesão corporal, de acordo com o Dossiê Mulher 2018. Segundo Aurélia leal, assistente social do Ceom, grande parte do público assistido é formado por mulheres jovens, que percebem cada vez mais cedo que vivenciam um contexto de violência e violação. Entretanto, também há o público idoso, onde a assistente social percebe uma naturalização maior da violência.

“Muitas são casadas há muitos anos e vivenciam desde jovens a violência, que em muitos casos começam com insultos e violência psicológica, e a gente percebe o quanto esses comportamentos estão naturalizados na nossa sociedade”.

O Brasil é o quinto país com a maior taxa de feminicídio no mundo. Além de uma maioria jovem, dados da ONU Mulheres apontam que as violências também vitimizam sobretudo as mulheres negras, com um aumento de mais de 50% de assassinatos em dez anos. Para a psicóloga do CEOM, Adriana Barros, auxiliar as mulheres no rompimento da violência não é fácil.

“Não é fácil viver, nem é fácil superar a violência. Muitas mulheres chegam aqui sem mesmo reconhecer que passam por uma situação de violação de direitos, e nós ajudamos nesse processo. E pensamos juntas formas de fazer a vida ser boa novamente. É muito delicado afirmar a violência”, disse.

Para Lyvia, o ciclo de violência teve fim, e ela conta como o CEOM foi importante nesse processo.

“Após procurar ajuda da Justiça através da Lei Maria da Penha, no qual fui muito bem assistida, eu estava sem saber como recomeçar a minha vida junto ao meu filho. Através do Conselho Tutelar cheguei até a Subsecretaria de Políticas Para Mulheres e o CEOM, o que foi fundamental para o meu recomeço. A ajuda da minha família foi muito importante nessa nova fase, mas o apoio da equipe da subsecretaria junto ao CEOM foi fundamental. Os psicólogos, advogados, assistentes sociais oferecem um atendimento muito humano, sempre estão prontos para me atender. E foi com o auxílio deles, através do Sine, que consegui conquistar o meu atual emprego e assim vou seguindo a minha nova vida junto ao meu filho”, relata.

Redes de proteção – Além do 180 (Central de Atendimento à Mulher em Situação de Violência), a cidade de São Gonçalo ainda possui as redes de proteção através do Conselho dos Direitos da Mulher, localizado na Rua Uriscina Vargas, 36, Mutondo; Movimento de Mulheres, na rua Rodrigues da Fonseca, 201, Zé Garoto; Delegacia de Atendimento a Mulher (DEAM), na Avenida Dezoito do Forte, 578, Mutuá; e através do próprio CEOM, que funciona de segunda a sexta, das 9h às 17h, com atendimento presencial na Rua Camilo Fernandes Moreira, em Neves, ou ainda pelo telefone 96427-0012.

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